Editoria de Arte/Agora Laguna, foto: Osid
 

Mais de 31 mil cartas enviadas de diversas partes do Brasil em agradecimento a Irmã Dulce relatando uma graça alcançada são preservadas com muito cuidado pela instituição criada pela freira católica da Bahia, as Obras Sociais Irmã Dulce (OSID). Um desses relatos foi escrito há 16 anos, em maio de 2003, por uma mulher* que agradecia a religiosa baiana pela cura da osteoporose. A freira será canonizada neste domingo, 13, pelo Papa Francisco, como ‘Santa Dulce dos Pobres’, a primeira santa nascida no Brasil.

Portal Agora Laguna teve acesso ao relato integral da carta (transcrita no fim da reportagem) escrita em Laguna, a moradora da cidade conta que vinha fazendo diversos tratamentos em Tubarão, para tentar curar a doença, considerada incurável até o momento pela medicina.

Meses antes de obter o diagnóstico de que não sofria mais da condição, que deixa os ossos mais frágeis, ela havia ganho uma imagem (santinho) da freira baiana e por conhecer a santidade de Irmã Dulce, rezou a ela. Ao fim do relato escrito a mão, em duas páginas, que foi enviado à Bahia com os exames em anexo, a devota finaliza contando o diálogo com a médica especialista e creditando a graça alcançada à futura Santa Dulce dos Pobres.

Falei para ela [a médica]: ‘Foi uma graça recebida através da intercessão de Irmã Dulce…’. Não sei se ela entendeu. Eu, porém, tenho certeza: foi uma grande graça recebida e o mérito foi de Irmã Dulce, junto a Jesus

Ao Portal, por telefone, a jornalista Adriana Patrocínio, assessora da OSID, comentou que a carta de Laguna, entre tantas outras de Santa Catarina, é um exemplo de como a devoção pela religiosa baiana é forte não só em seu estado natal. De acordo com ela, há possibilidade de existir mais relatos vindos da cidade juliana. “Estamos catalogando e pode ter mais no meio do arquivo”, afirma.

Os relatos que foram chegando de todo o país são variados. Mas duas graças em especial, confirmadas pela Santa Sé como milagres, serviram para que Irmã Dulce fosse beatificada e neste domingo, 13, ganhasse a tão esperada canonização.

Parte do primeiro parágrafo da carta de moradora de Laguna – Foto: Adriana Patrocínio/Comunicação Osid

Os milagres de Irmã Dulce

A beata que vai ser canonizada teve o primeiro milagre reconhecido em 2003. Dez médicos brasileiros e outros três italianos divulgaram que havia acontecido um “caso extraordinário de cura”. A graça, confirmada por unanimidade pela Congregação para as Causas dos Santos do Vaticano, aconteceu em janeiro de 2001, quando a devota Cláudia Santos de Araújo, de Sergipe, teve grave hemorragia durante o parto entrando em coma.

Seus médicos tinham lhe sentenciado há apenas algumas horas de vida. Um sacerdote, conhecido de Cláudia, e conhecedor da fé que ela tinha por Irmã Dulce, fez orações pela sua saúde para a freira baiana. Horas depois, ela havia se recuperado e dois dias após, teve alta e saiu do hospital com o bebê nos braços.

Um dos reconhecimentos de santidade, seguiu a tradição católica: a exumação do corpo da missionária baiana mostrou que Irmã Dulce não tinha sofrido a ação do tempo, ou seja, se mantinha ‘intacta’. O segundo milagre confirmado pelo Vaticano é do maestro José Maurício Moreira, de Salvador (BA), 14 anos depois de ter ficado cego por um glaucoma, ele voltou a ver após ter rezado para a freira, pedindo que ajudasse na cura de uma conjuntivite que vinha provocando dores. Ao acordar, tinha recuperado a visão.

Sobre a primeira santa brasileira

A primeira santa oficialmente nascida no Brasil, Santa Dulce dos Pobres, será canonizada às 5h (horário de Brasília) pelo Papa Francisco, no Vaticano. Irmã Dulce nasceu na capital baiana em 1914, e desde pequena manifestava desejo de seguir na vida religiosa.

Após entrar para o convento, se tornou freira em 1934, ensinando em um colégio mantido por sua congregação religiosa. Poucos anos depois, fundaria suas primeiras ações sociais, sendo a principal, a criação do Hospital Santo Antônio, até hoje existente em Salvador.

O reconhecimento de suas atividades sociais viriam com mais intensidade na década de 1980. Na primeira visita do Papa João Paulo II, ao Brasil, Irmã Dulce foi convidada a subir ao altar e recebeu do pontífice um terço, e ouviu o pedido dele: “Continue, Irmã Dulce, continue”. Em 1988, seria indicada ao Prêmio Nobel da Paz.

Com a saúde fragilizada, a beata morreu em 1992, aos 77 anos.

Leia a íntegra da carta enviada por moradora de Laguna

Laguna, 20 de maio de 2003

À postulação da Causa da Beatificação de Irmã Dulce, a paz do Senhor Jesus!

Estou, neste momento, encaminhando meus exames de densitometria óssea, que provam a cura de osteoporose, que tomava minha coluna lombar. Entre outros problemas de saúde, existia comigo, esta osteoporose que é incurável pela medicina.

Recebi há alguns meses uma correspondência da Comunidade Católica Divina Misericórdia local, que trazia inclusive, a estampa de Irmã Dulce (santinho). Logo que vi aquela figura santa, lembrei-me de sua vida aqui na terra, inteiramente dedicada as pobres e excluídos. Admirava Irmã Dulce, quando a via através da televisão. Admirava seu porte frágil, que trazia no seu interior uma força extraordinária e divina. E, ao olhar, então, para aquela figurinha rezei:

“Irmã Dulce, tenho muitos problemas de saúde, muitas dores, e sei que existem muitas pessoas rezando por mim, mas há algo em mim, que será curado pela vossa intercessão junto a Jesus. É a minha osteoporose, pois através desta cura, poderei provar a graça alcançada, através de exames, visto que não há cura para esta doença, dentro da medicina. Assim, poderei colaborar na causa da vossa beatificação…”

Olhava frequentemente para a figura da Irmã Dulce, rezava e pedia sua intercessão. Quando, após um ano de tratamento, viajava para a cidade vizinha de Tubarão para fazer o exame, ia rezando e confiando meu problema a Irmã Dulce.

A secretária de minha médica, Dra. Maria Julieta (ginecologista que me acompanhava) ficou encarregada de pegar o resultado do exame, e após avaliação da médica, me devolveria, ou me telefonaria.

Recebi após alguns dias, o telefonema da Dra. Julieta,a dizendo que o exame estava normal; Eu não apresentava, quero dizer, estava eu livre da osteoporose. Logo intendi e falei para ela:

“Foi uma graça recebida através da intercessão de Irmã Dulce…”. Não sei se ela entendeu. Eu, porém, tenho certeza: foi uma grande graça recebida e o mérito foi de Irmã Dulce, junto a Jesus.

* o nome da moradora foi preservado por causa do sigilo canônico.